Brasil disputa em Sundance com filme sobre linchamento virtual

Por guilherme genestreti

Embora tenha protagonistas adolescentes, “Ferrugem”, do diretor baiano Aly Muritiba, passa bem longe da cartilha alentadora que marca filmes do gênero. Selecionado para competir no prestigioso Festival Sundance, o longa gira em torno das consequências dramáticas de um linchamento virtual.

“É um tema que tem tudo a ver com o festival”, diz o diretor à Folha. Agendado para ocorrer entre 18 e 28 de janeiro do ano que vem, em três cidades de Utah, nos EUA, Sundance é a maior vitrine do cinema independente mundial.

O estopim da trama é o vazamento do vídeo íntimo de uma garota, Tati (Tifanny Malaquias), e o que sucede a ela e às pessoas de seu entorno, principalmente o namorado, Renet (Giovanni de Lorenzi).

Ex-professor nos ensinos médio e fundamental, Muritiba diz que notou como a questão do bullying virtual “se tornou mais aguda” entre adolescentes com o passar dos anos. Para ele, tem a ver com ­novas gerações de pais, que “não preparam seus filhos para a frustração”.

“Minha geração é infantilizada. Fomos educados a não dizer não aos nossos filhos”, afirma o diretor de 38 anos, pai de uma adolescente de 14. “É um filme que tem a ver com os medos dos pais de jovens.”

Ele diz que o título do longa é referência à “corrosão e ao esfacelamento da vida analógica” dos personagens.

Corrosão é uma constante em suas obras. Sua estreia em longas de ficção, “Para Minha Amada Morta” (2015), também revolvia em torno de uma derrocada e seu gatilho também era um registro audiovisual –no caso, uma fita em VHS que levava o viúvo Fernando (Fernando Alves Pinto) a reavaliar a relação que teve com a mulher morta.

Radicado no Paraná, Muritiba é ex-agente penitenciário, e explorou essa experiência numa “trilogia carcerária”: o último da leva foi o documentário “A Gente”.

Lançado em setembro, o filme o fez se reencontrar com os antigos colegas de ofício e resultou num retrato nuançado sobre a questão penitenciária no país, retrato que é fruto de sua formação humanista (o diretor é formado em história) e de seus anos à frente das grades.

A experiência internacional não é coisa nova para Muritiba, que já emplacou seus curtas “Tarântula” e “Pátio” nos festivais de Veneza e Cannes, respectivamente.

Essa será sua segunda vez em Sundance, palco que já recebeu (e muito bem) a estreia de um estouro nacional, “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, em 2015.

BENZINHO

Além de “Ferrugem”, outro título brasileiro também compete em Sundance: o longa “Benzinho”, de Gustavo Pizzi. Na trama, Irene (Karine Teles) é uma mãe que, além dos problemas cotidianos, é forçada a lidar com a angústia da separação do filho. É que seu primogênito, Fernando (Konstantinos Sarris) é chamado para jogar handebol na Alemanha.

Pizzi é diretor de “Riscado” (2010). “Benzinho” é uma coprodução com o Uruguai, e tem ainda Otávio Müller e Adriana Esteves no elenco.

(Na foto acima, os atores Tifanny Malaquias e Giovanni de Lorenzi em cena de ‘Ferrugem’, de Aly Muritiba. Créditos: Divulgação)