Em livro, cineasta faz apanhado da atual produção gay no Brasil

Por guilherme genestreti

Faz uns 20 anos que o cinema brasileiro saiu do armário, a reboque da retomada da produção nacional, interrompida durante os anos Collor. Não que antes gays, lésbicas, travestis e transexuais não dessem pinta por aí nas telas –embora muitas vezes com uma conotação preconceituosa. Mas foi só recentemente que houve um boom de produções que colocam a sexualidade.

O cineasta e jornalista Lufe Steffen compilou entrevistas com 20 cineastas da cena atual que lidam com o tema no livro “O Cinema que Ousa Dizer seu Nome”. Estão ali nomes que como o paulista Daniel Ribeiro (“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”), os gaúchos Filipe Matzenbacher e Marcio Reolon (“Beira Mar”), o mineiro Marcelo Caetano (do futuro “Corpo Elétrico”) e o paulista Gustavo Vinagre (“Nova Dubai”).

Cinema: os atores Fabio Audi (Esq.) e Ghilherme Lobo, em cena do filme "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", de Daniel Ribeiro. (Foto: Divulgação) ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Os atores Fabio Audi e Ghilherme Lobo em cena de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro. (Foto: Divulgação)

“Quando eu ia aos festivais desses filmes, me interessava em saber os processos criativos deles. Sentia uma conexão e ficava curioso sobre o cinema deles”, diz o autor.

A Ribeiro, por exemplo, Steffen pergunta sobre o retrato em geral simpático e positivo que o cineasta costuma fazer de seus personagens gays, algo que é bastante evidente em “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (2014). “Quando o público que não é homossexual consegue se enxergar nestes personagens, existe a possibilidade de compreensão e solidariedade em relação aos conflitos deles”, responde o diretor.

Quando entrevista Vinagre, diretor de uma obra com alta voltagem sexual, aborda fetichismo e exibicionismo –o cineasta costuma aparecer nos próprios filmes. “Gosto de provar e sinto que estou cada vez mais aberto a isso graças às minhas experiências nos próprios filmes”, diz Vinagre.

Cena do longa Beira-Mar, que serah exibido no festival de cinema do Rio. Divulgacao. ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Cena do longa “Beira-Mar”, de Filipe Matzenbacher e Marcio Reolon

“O cinema queer brasileiro não é monotemático: é amplo, trata de sexo, de família, de transexualidade, de criança… Mesmo a questão da saída do armário já não aparece tanto”, diz Steffen. A diversidade de temas, segundo ele, é o que diferencia a vertente brasileira do chamado New Queer Cinema, movimento que irrompeu nos EUA e na Inglaterra a partir dos anos 1980 e que trouxe à baila as questões gays.

Falta ao livro, contudo, um retrato do cinema lésbico: nenhuma das entrevistadas é mulher.

“O recorte do livro a registrar cineastas que têm recorrência no tema gay”, afirma Steffem “Automaticamente ficaram de fora as mulheres, porque elas fizeram poucos filmes gays. Isso é reflexo do machismo no cinema.”

O CINEMA QUE OUSA DIZER O SEU NOME
AUTOR Lufe Steffen
EDITORA Giostri
QUANTO R$ 52 (288 págs.)