Brasil toca o terror (e o suspense) no Festival de Veneza

Por guilherme genestreti

Não é que as agruras do Brasil profundo não estejam lá –como elas têm marcado presença nos festivais estrangeiros há décadas. É que uma parte considerável da produção nacional que será exibida na edição deste ano do prestigiado Festival de Cinema de Veneza foge do manjado (ainda que necessário) registro das desigualdades sociais do país.

Dois dos três filmes selecionados para a mostra de cinema italiana —o longa “Mate-me Por Favor”, da carioca Anita Rocha da Silveira, e o curta “Tarântula”, do baiano Aly Muritiba e da paranaense Marja Calafange –flertam com o cinema de gênero, no caso uma mescla entre o terror e o suspense psicológico. A terceira produção, “Boi Neon”, do pernambucano Gabriel Mascaro, segue o receituário tradicional dos filmes brasileiros de festival: é um drama rural.

Ambientado na zona oeste do Rio, “Mate-me” é um filme sobre adolescentes às voltas com uma série de homicídios de mulheres. Os corpos delas são encontrados mutilados em terrenos baldios.

“Tem um toque de terror e de humor negro”, diz Anita ao Sem Legenda. A diretora, que é estreante em longas, afirma que seu novo filme remexe no mesmo universo de seus curtas anteriores, “Os Mortos-Vivos” (2012) e “o Vampiro do Meio-Dia” (2008).

Cena do filme ‘Mate-me Por Favor’, de Anita Rocha da Silveira. Créditos: Divulgação

Em matéria publicada na última quinta (30), na Folha, poucas horas após o anúncio dos selecionados para o Festival de Veneza, Anita disse que estava vivendo “um sonho”. “O filme ser exibido ali vai permitir que ele seja visto por muito mais pessoas.”

a idéia é mais que Veneza é uma plataforma super importante e o filme ser exibido ali vai permitir que ele seja visto por muito mais pessoas.

Do mesmo universo vem “Tarântula”, curta ousado rodado no interior do Paraná. O teaser (confira abaixo), que começou a circular na última semana, dá ideia do clima e já adianta que o sinistro casarão onde a trama é ambientada, lugar com um quê de lar da família Bates, é “quase um personagem do filme”, como descreve Muritiba, um dos diretores.

Três mulheres da mesma família (uma mãe e duas filhas) vivem isoladas numa casa de campo. Até que certo dia aparece um homem que vai balançar o equilíbrio entre elas. “É um drama que beira o suspense”, diz Muritiba.

“Está mais do que na hora de o Brasil experimentar outros gêneros narrativos”, afirma o diretor, que cita o alemão Michael Haneke (“Fita Branca”) como uma referência para o curta. “Adoro como ele lida com esse universo, como registra essa dilatação do tempo.”