A simplicidade do cinema de Coutinho é ilusória, diz João Moreira Salles

Por guilherme genestreti

Uma cadeira, uma câmera ligada e um entrevistado –que pode ser um peão, uma atriz ou um morador de favela– que se abre, conta seu passado, chora, canta. Com um receituário aparentemente simples, Eduardo Coutinho (1933-2014) se firmou como o maior nome do documentário brasileiro.

Mas esse “cinema simples” é uma “ilusão”, segundo o também documentarista João Moreira Salles, produtor dos filmes de Coutinho.

“Muitas coisas acontecem ali simultaneamente”, diz ele à Folha. “Surge ali um negócio que não existia antes –um cinema feito de quase nada que não é pobre nem modesto.”

Após o assassinato de Coutinho, em fevereiro de 2014, Moreira Salles assumiu a finalização de “Últimas Conversas”, filme que o diretor paulista havia acabado de rodar, mas que ainda não havia sido editado. No longa póstumo, Coutinho entrevista jovens da rede pública carioca.

O Sem Legenda conversou por e-mail com João Moreira Salles sobre o processo de finalização do documentário e sobre as características do cinema de Eduardo Coutinho.

Em “Últimas Conversas”, Eduardo Coutinho entrevistou adolescentes da rede pública de ensino do Rio. Ele chegou a dizer por que resolveu investir nesse tema para o filme?

Coutinho costumava dizer que se interessava por quem não era ele. Ele não era peão (“Peões”), não era mulher (“Jogo de Cena”), não era sertanejo (“O Fim e o Princípio”). Não era jovem e queria conhecê-los.

Como acha que esse documentário se encaixa na filmografia dele?

Como mais uma incursão em terreno não percorrido. A cada novo filme Coutinho alargava um pouco mais as possibilidades do cinema dele e, em decorrência, tornava mais amplas as fronteiras do cinema documental. Memória era o elemento central da obra dele; memória entendida como experiência vivida sobre a qual se acrescenta uma camada de invenção ficcional. É o que tempo faz, a gente inventa parte do que se lembra. Coutinho dependia demais dessa camada de invenção, e aqui ele se defronta com jovens para os quais quase não há intervalo entre a vida e a memória da vida. Ou seja, assim como em outros filmes ele abriu mão de elementos que sempre fizeram parte da escrita do cinema – roteiro, movimento de câmera, narração, cenário, até mesmo direção (“Moscou”) – nessas conversas ele dispensa o nutriente que sempre alimentou a obra. O cinema dele sobrevive a mais essa redução? É o que ele tenta investigar.

O documentarista e produtor João Moreira Salles (Créditos: Bruno Poletti/Folhapress)

Coutinho deixou todo o material bruto desse filme, mas não chegou a participar da montagem, embora tenha deixado rascunhado o que queria dela. Como foi o processo de edição do filme? 

[A montadora] Jordana Berg e eu fizemos dois filmes. O primeiro seguia as anotações que Coutinho deixou e tentava intuir o filme que ele teria feito a partir do material filmado. O segundo, que só iniciamos depois de considerar o primeiro acabado, é o filme que nós dois fizemos a partir do material filmado por ele. São duas coisas diferentes. Prevaleceu o segundo filme.

Em conversa com Jordana, ela me disse que Coutinho dificilmente aprovaria o corte final desse filme. Concorda com ela? Por quê?

Talvez seja mais correto afirmar que Coutinho não teria feito este filme, o que não é bem a mesma coisa. Tenho a impressão que Jordana concordará comigo quando digo que Coutinho aprovaria, sim, o filme, pelo fato de não ser o filme dele, mas o nosso, o único que seria razoável fazer dado que ele não está mais aqui. Gosto de pensar que ele acharia até interessante – se não o filme, ao menos o processo.

O cineasta Eduardo Coutinho. (Créditos: Divulgação)
O cineasta Eduardo Coutinho. (Créditos: Divulgação)

Você costuma dizer que a grande reflexão, o verdadeiro objeto, no cinema de Eduardo Coutinho não é o mundo externo, mas o ato de filmar. Como acha que essa reflexão se encaixa em “Últimas Conversas”?

A gente sabe que a simplicidade do cinema do Coutinho é ilusória. Muitas coisas acontecem ali simultaneamente. Sem dúvida a invenção cinematográfica é um dos aspectos que sempre me chamou a atenção. Surge ali um negócio que não existia antes – um cinema feito de quase nada que não é pobre nem modesto na medida em que afere com precisão a escassez mínima de meios a que um filme pode ser submetido sem que deixe de ser filme. A meu ver a importância disso é muito grande. Trata-se de uma experiência magnífica, que não acontece dentro de cada filme, mas entre cada filme, o que é outra maneira de dizer que Coutinho é autor de uma obra. É um percurso, do qual “Últimas Conversas”, pelas razões já expostas, é mais uma etapa.

O cinema de Eduardo Coutinho pressupõe a figura do documentarista como elemento essencial para o resultado do filme: As coisas existem porque foram filmadas. E isso não é o que pensa o senso comum dos documentaristas, que tendem a crer que a realidade pode ser absorvida tal como ela é, independentemente da presença do diretor. O que acha que esse tipo de constatação muda para o gênero documental como um todo?

Há uma lista bastante longa de documentaristas para os quais a ideia de capturar a realidade sem perturbá-la é uma noção comicamente ingênua. Dziga Vertov puxa a fila nos anos 20 do século passado, mas mesmo ele provavelmente tem antepassados. Lumière deve ter percebido como as pessoas reagiam à câmera dele. Às vezes acho que essa ingenuidade é mais de quem escreve sobre documentários do que de quem os realiza, embora saiba que muitos documentaristas acreditam nisso. Geralmente são praticantes oriundos do ativismo, das ciências sociais ou do jornalismo.

O que acha que seria o próximo projeto de Coutinho, caso ele estivesse vivo?

Se ele pudesse, faria um filme sobre absolutamente nada.

Amanda, uma das estudantes entrevistadas em "Últimas Conversas", de Eduardo Coutinho
Amanda, uma das estudantes entrevistadas em “Últimas Conversas”, de Eduardo Coutinho

Coutinho entrevista apenas adolescentes no documentário. A última entrevistada, contudo, é uma criança de seis anos, filha de pais médicos. Tem, portanto, um perfil bastante diferente dos demais entrevistados. Por que ela aparece no filme?

Fico um pouco surpreso que a origem social da menina seja o aspecto que mais chame atenção. Coutinho passou a vida filmando gente que falava sobre o passado e agora, pela primeira vez, tinha diante de si uma menininha de seis anos para quem o passado era quase nenhum, e o futuro, imenso. Francamente, me parece secundário se os pais são médicos ou carpinteiros. Importa é que o percurso de Coutinho vai dar na infância, onde as palavras são novas e nenhuma pergunta é tola demais. Não era exatamente isso que ele buscava no cinema dele?

A montagem também deixou muito claro o desconforto e as dúvidas de Coutinho quanto à realização deste filme em particular. Por que acha que Coutinho não estava satisfeito? E por que incluir essas inquietações dele na edição final?

Coutinho dizia que os jovens não rememoram, vivem. A dúvida, que por vezes se manifestava como uma angústia, se referia à possibilidade de o cinema dele sobreviver à fala de quem está essencialmente no presente. A filmagem foi toda marcada pela ameaça de fracasso. Jordana e eu achamos importante que o filme esclarecesse as condições em que foi realizado.

Assim como nos demais documentários, Coutinho diz aos entrevistados muito do que ele pensa em relação ao mundo. Diz, por exemplo, que “o silêncio é ótimo” e que “não há vida OU morte, mas vida E morte”. Há algo que ele deixa entrever nesse filme que tenha chamado a sua atenção?

A gente conhece a tese do Coutinho “vazio” frente aos personagens, uma noção que ele próprio se encarregava de difundir. À revelia dele, muita gente conferiu um caráter místico ao que era apenas uma técnica, como se Coutinho fosse um santo que se despia das suas angústias para absorver as dores e alegrias dos outros. Por vezes é quase o contrário que acontece. Os exemplos estão espalhados por toda a obra, basta querer ver, e não seria diferente neste último filme. Por que o tema da morte está tão presente em conversas com jovens que sequer chegaram aos vinte anos? Porque a morte era um assunto dele, Coutinho, assim como a fé, a metafísica do além-túmulo e a relação pai e filho. As conversas são ricas porque ele não era um beato new age, feito de luz, bondade e dois ouvidos acolhedores. Antes, ele era um homem frágil e com medo da morte que se expunha assim diante dos outros na esperança de passar alguns minutos na companhia de alguém com quem pudesse partilhar angústias comuns. Quando dava certo, era como ele diz no documentário do Carlos Nader: “Eu te dei alguma coisa, você me deu alguma coisa”. Era uma forma de consolo e também uma dádiva.