No set (e na estrada) com o diretor Hector Babenco

Por guilherme genestreti

Com um copo na mão e trajando um vestido de festa roxo, a atriz Maitê Proença cruza languidamente uma ampla sala num casarão da Vila Nova Conceição, bairro de alto padrão na zona sul de São Paulo, e se vira para o americano Willem Dafoe, em inglês: “Você sabe que eu sempre sonhei em participar de um filme seu”. Ele responde: “Estou atrás da história perfeita”.

Take 1, take 2, take 3. Sentado em sua cadeira de diretor, o cineasta Hector Babenco pede repetidamente silêncio à equipe no set. “Só um minutinho, gente”, diz com seu marcado sotaque argentino.

Dafoe e Proença compõem o elenco do novo filme do diretor de “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981) e “Carandiru” (2003). A nova obra se chama “Meu Amigo Hindu”, filmada após um hiato de oito anos, e que reúne elementos autobiográficos de Hector Babenco, em especial sua experiência com um câncer no sistema linfático.

O diretor Hector Babenco posa em carro usado no longa-metragem 'Meu Amigo Hindu'. Créditos: Mujica Saldanha
O diretor Hector Babenco posa em carro usado no longa-metragem ‘Meu Amigo Hindu’. Créditos: Mujica Saldanha

Visitei o set com exclusividade numa noite de sexta-feira, ocasião em que o cineasta me fez um convite para que eu o acompanhasse numa viagem até Paulínia, no interior de São Paulo, onde ele rodaria algumas das cenas de “Meu Amigo Hindu”. “Se você fizer pergunta idiota, te deixo lá”, ele me avisou, brincando.

A entrevista rendeu e foi capa da edição da última segunda-feira (9) da “Ilustrada”, que pode ser conferida aqui.

Por uma hora e quarenta minutos, o diretor indicado ao Oscar por “O Beijo da Mulher Aranha” (1985) falou sobre seu novo longa, sobre política cultural, comparou o cinema brasileiro ao argentino e fez um balanço de sua carreira.

A íntegra da conversa pode ser conferida aqui:

Folha – Seu novo filme é sobre um homem que está se recuperando de uma doença grave, certo?
Hector Babenco – Estou num processo de construção do filme e ficar falando é penoso. Se você sabe a trama perde a graça. É sobre um homem que vai morrer, que sofre um tratamento invasivo e que convive com um menino hindu, com quem ele estabelece uma relação muito peculiar e interessante. Um dia, já sarado, muitos anos depois, ele já um homem adulto se pergunta onde está aquele menino hindu que foi seu colega. Essa pergunta basicamente é a mola propulsora pra contar a história do filme. O protagonista é diretor de cinema.

É um filme de busca?
Não é um filme de busca, do ponto de vista de ir atrás de uma pessoa, como está muito na moda hoje ir atrás do pai, do irmão, mãe, ir atrás de filho. Não, é exatamente o oposto e a viagem é interior e a busca é de saber se ele está vivo ou não dentro dele. Você tem que fazer uma autointrospecção, uma autoanálise, para poder exorcizá-lo um pouco e dar vida a esse filme que está nascendo. Então agora eu tenho que cuidar dele e é por isso que não gosto de falar dele. Ele é muito incipiente ainda, de transformação e estruturação.

Por que decidiu rodar em inglês?
É um filme urbano, não faz a menor diferença se acontece em Paris, Londres ou Buenos Aires. Ia ser em português, mas foi impossível achar atores brasileiros disponíveis para o protagonista. Estavam alocados em novelas. Todos, absolutamente todos. Estavam já programados em novelas do Jayme Monjardim ou pra novelas no Luiz Fernando Carvalho. Um profissional da minha idade tem que esperar dois anos para que os atores estejam disponíveis para fazer um filme, e quando eles estão disponíveis já tem também outros filmes e peças de teatro pra fazer, é uma luta inglória pra você fazer um elenco com bons atores. Não é um filme que permita trabalhar com atores sem experiência, como já fiz em outras vezes. Eu precisava de atores com mínimo de informação para atuar. Isso me deixou desesperado no ano passado, foi assim em fevereiro, março, abril, maio: me reunia com as pessoas e elas diziam: “Ah, Babenco, adorei o roteiro, quero fazer o filme, mas estou entrando em uma novela em setembro”. E eu perguntava quando que terminava e eles respondiam: “Em julho ou agosto do ano que vem”. Ai fica foda.

E como chegou até Willem Dafoe?
Eu fui ver a peça de Bob Wilson em São Paulo no ano passado, com o Willem Dafoe no elenco [“The Old Woman – A Velha”]. Saí para jantar com Willem e falei do filme. Ele pediu pra ler o roteiro e gostou muito. Fui um pouco atrevido, digamos. Ele me ligou e disse pra passar no hotel pra almoçar, almoçamos e em um guardanapo ele me escreveu diretamente suas datas, nem perguntou nada nem eu perguntei nada. Ele disse: “Essas são minhas datas”. Então imediatamente ele me colocou uma camisa de ferro e eram as mesmas datas que tinha para rodar no Hospital Sírio-Libanês, acredita? Imagina você achar um andar de hospital livre pra você durante dois meses dia e noite. Eu o conhecia do filme “A Última Tentação de Cristo”, quando ele esteve em Veneza e eu era juri no festival e a gente saiu pra jantar umas duas vezes e se deu super bem.

O que achou do trabalho dele?
Ele tem consciência das suas responsabilidades, jamais chegou atrasado, jamais se queixou de esperar para rodar um plano. Os estrangeiros não se veem como artistas, mas como operários da representação. Ele não tem vaidade artística, tem responsabilidade criativa. Tem um modelo de interpretação muito discreto e e acho que imprimiu ao filme uma marca muito grande. Uma marca que eu não sabia qual era que o filme tinha, e acabou ele sendo quem deu a música ao filme.

Que marca seria essa?
Foi uma marca de “Less is more”, menos é mais. E eu comecei a trabalhar com todos atores exatamente no mesmo registro: eles chegavam, propunham, e eu dizia “não”. “Menos, mais baixo, sem expressar com a mão o que você está querendo dizer”, e fui limpando o modelo de interpretação que eu acho que deu um filme um viés muito romântico, muito épico e muito bonito.

Em “Meu Amigo Hindu” o personagem é um cineasta. É um filme autobiográfico?
Me alimentei de informações da minha memória. Mas não é biográfico, porque é ficcional. É a vida de um diretor que é condenado à morte. A rigor o filme é isso. Não é alegre, mas é um filme que começa muito escuro e tem um final muito solar, uma explosão de luz.

“Coração Iluminado” também tem elementos autobiográficos.
Cada um encontra criação onde quer. Eu talvez tenha a limitação de não conseguir ver além do meu nariz. Não me vejo como artista, renovador da linguagem, não me vejo como porra nenhuma, mas como contador de histórias.

A inspiração para “Meu Amigo Hindu” veio de suas experiências com a doença?
Veio de mim. Mas não quer dizer que eu vou contar o que vivi. Com os momentos difíceis que passei e passo ainda hoje eu lido com psicanálise, autoanálises e sei lá.

O cinema não faz parte?
Não, cinema é meu quintal, é bolinha de gude: eu jogando, eu fazendo pontaria. Já teve um momento que foi sinuca, mas nunca foi álbum de figurinha, pra não colar em personagem que não são meus. Eu tendo que acertar o buraquinho no chão de terra, esse é meu jogo.

E sua trajetória lá fora? “Ironweed” te deu dinheiro?
Não me deu dinheiro, me pagaram pra trabalhar. Com esse dinheiro economizei e consegui ter casa própria. Dinheiro ninguém me deu. No Brasil eu não sou pago pra trabalhar, porque o governo não me deixa colocar no orçamento mais do que um salário que eles determinam. Ninguém vive com isso, nem o contínuo do Ministério da Cultura. Jamais ganhei dinheiro no Brasil.

Pode falar um pouco sobre sua trajetória em Hollywood?
Eu não passei nunca por Hollywood, a não ser pela [rua] Hollywood Boulevard, de carro. Todo projeto que eu fiz em inglês lá fora foram projetos meus feitos com produtores independentes. O “Ironweed” é um filme independente que nasce na casa do William Kennedy, que era o autor, e que se completa no dia em que o Jack Nicholson topou fazer o filme e chamou a Meryl Streep na minha frente. Ele só veio a ser distribuído por uma major americana. A rigor, eu passei pelos EUA, mas não passei por Hollywood. Eu não passei por Hollywood porque não me queriam, porque sabem que não sou pra eles. O caminho que me interessava era uma coisa um pouco mais ideologicamente artística do que só comercial.

Mas seus filmes tiveram êxito comercial.
“Pixote”, “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru” são filmes que abriram o mercado e marcaram presença, estacaram bandeira, mas não foram desenhados para que isso acontecesse. Aí é que está o mistério do jogo. O mistério do jogo é saber se esse filme vai passar numa semana nos Belas Artes e no Reserva Cultural ou se vai ficar dois meses em cartaz e vai ser exportado. Eu não tenho menor ideia.

Nesta quinta começa uma mostra na Cinemateca com retrospectiva dos seus filmes.
Fiquei sabendo porque me mandaram um e-mail, pedindo pôsteres e perguntando se tinha fotos dos filmes. Fazer o quê? Entrar lá com uma espingarda e matar todo mundo? Deixa eles. Eles vão se consumir na própria mediocridade deles. Eles têm os filme e as salas. Poderia eu proibir? Não sei, mas não vou estar presente. Ninguém me perguntou o que eu achava.

E se te perguntassem?
Que vão pra puta que o pariu. Por isso, por ser desrespeitoso. Se eles querem utilizar o que eles possuem, sei lá, o mínimo que têm que fazer é falar comigo. Eu não sei nem o dia que abre.

Que acha da atual política cultural de fomento ao cinema?
Vivemos numa cultura de concentração de recurso pelo Estado e o Estado com uma vocação gigante de ser a mãe produtora de tudo. Sou contra qualquer tipo de controle do Estado para a produção. Brasileiro vive de edital: não há um colega que não diga que está esperando sair algum edital. Se essas leis de incentivo não existissem, o cinema brasileiro andaria melhor.

Livre mercado no cinema?
Sim, como há 20 anos. E não se fizeram grandes filmes? Não tinha lei de incentivo. Havia retorno. Porque o ingresso não era obrigado a custar só R$ 10. Hoje, o governo te dá uma merreca: demora dois anos pra sair um edital e ganhar e poder fazer algo pra depois ter que cobrar R$ 10 o ingresso.

Como “Meu Amigo Hindu” está sendo financiado?
Com economias pessoais e ajuda de amigos. E com o edital do polo de Paulínia.

O que acha do cinema brasileiro atual?
Me diga um nome de filme.

”Praia do Futuro”.
Gosto muito. Gosto muito do olhar do Karim, que é para mim o cineasta mais interessante do Brasil no momento. Acho muito legal o trabalho dele. Talvez não seja nem o melhor filme dele. No “Praia do Futuro” ele abraçou esse universo gay. Sei lá, alemão com brasileiro, uma coisa meio estranha. E o filme é sobre o que não gruda. E aparece um irmão. Sei lá, eu gostei do filme. O filme é complexo, não é um filme redondo, mas um filme complexo. Gosto do Marcelo Gomes também. Cinema atual tá muito difícil de ter coisa muito boa. Aquele filme do menino cego [“Hoje Eu Queri Voltar Sozinho”, de Daniel Ribeiro] eu não vi. Não tenho visto muita coisa. Não parece que tem tido coisa muito significativa.

“O Lobo Atrás da Porta”.
Curioso o filme, bonito.

“Tatuagem”.
É muito cômico, engraçadíssimo. É uma versão moderna dos Dzi Croquettes. Eu adorei, ele é neto do Dzi Croquettes. Super gay, adorei, adorei, adorei. Me diverti muito assistindo.

E essa nova série do Fernando Meirelles, que ele fez para a Globo?
Eu não vi, mas ele é um diretor muito astuto e filma muito bem. É muito antenado com a modernidade com a qualidade do relato e a forma. O Fernando Meirelles falou: “ Prefiro fazer televisão para muitos do que cinema para ninguém”. Tudo bem, quer saber? Do ponto de vista dele, está certo, ou melhor, é a visão dele. Agora, isso demonstra também que não há nele absolutamente nenhum interesse em expor a pessoa dele em um filme. Porque fazer televisão é muito mais trabalhar com o texto dos outros, está falando pra milhões então não pode falar de você, né? Acho que ele ficou um pouco triste com alguns filmes dele que não deram certo tanto quanto deu “Cidade de Deus”, que é um grande filme. Eu passei um pouco por isso muito jovem e sem maturidade profissional, eu fiquei extremamente feliz com o “Pixote”, e depois com “O Beijo”, e depois de um tempo tudo que eu fazia me parecia que todo reconhecimento que eu tivesse era pouco.

E próximos projetos, já tem algum?
Tem o filme carioca, que eu gosto muito, e gostaria de fazer, chamado “Cidade Maravilhosa”. Filme que eu escrevi durante dois anos e até o Fundo Setorial gostou e aprovaram , mas naquele momento não tinha condições de fazer filme. Estava muito caro.

O que você acha que há de brasileiro e de argentino no seu cinema?
Sou um exilado no Brasil e um exilado na Argentina. Não consigo me fazer sentindo parte de nenhuma das duas culturas. E as duas coisas existem em mim de forma poderosa. O argentino tem um humor menos escrachado e muito mais inteligente que o brasileiro, né? O humor do brasileiro é muito mais “chanchadão”. O da Argentina é mais irônico.

E o que acha do cinema argentino?
O modelo argentino de produção é diferente. Eles têm que se regrar no mercado, procurar parcerias para sobreviver no mercado, que eles encontram no cinema espanhol porque existe uma irmandade de línguas. Todos os filmes que saíram da Argentina agora são coproduções com a Espanha ou Itália, e às vezes até com a França. São filmes que não custam mais que US$ 1,5 milhão, e são raros os filmes com esse preço no Brasil: todos custam de R$ 6 milhões pra cima. Não porque a gente quer fazer filmes mais caros, mas porque o mercado está muito mais caro. E como é que esse cinema brasileiro hoje representa nossa identidade nacional? O cinema argentino conquistou um espaço no mundo com cinco filmes em seis ou sete anos. Quais são os cinco filmes brasileiros que tem criado uma identidade brasileira? Só “O Som ao Redor,” que se fala no mundo inteiro.Os argentinos são mais inteligentes que os brasileiros? Não. Mais competentes? Não. Só que o cinema deles tem uma cultura de mercado e o nosso vive de outra cultura de mercado.

Você ficou oito anos sem rodar. Seu último filme foi “O Passado”
Foi feito com dinheiro argentino e um pouquinho de dinheiro brasileiro de lei. Eu atendia um pedido, de um secretário do Ministério da Cultura que disse: “Queremos muito, nós aqui do governo e do Ancine, uma integração latino-americana e achamos que você deveria ser o cara para fazer um filme um pouco na Argentina e um pouco no Brasil”. Saiu um produto híbrido que na Argentina é um filme brasileiro falado em espanhol, e no Brasil é um filme argentino falado em espanhol. Você é estrangeiro na sua cultura, você não integra porra nenhuma, você é estrangeiro em um país e não está abraçando nenhuma identidade. É uma ficção a integridade latino-americana, é uma ficção.

Acha mesmo que a integração entre os latinos é uma ficção?
Não existe economicamente então porque existiria culturalmente ou então poeticamente se somos bichos diferentes? O que o Brasil tem a ver com peruano? Um equatoriano com um uruguaio? Um chileno com mexicano? Porra, nada! Então esse sonho bolivariano utópico, de comunista de salão, de que a América Latina seja uma força realmente integrada é uma balela, é discurso da década de 1960 e teve gente que não cresceu e decidiu abraçar uma ideia da esquerda. Você entende o que eu quero dizer? . Já passou esse momento. Não estamos mais em 1960. Já se passaram 50 anos, meio século, cara, e as pessoas ainda estão nisso? Como é possível? E o mundo correndo ao seu redor, a informação correndo no ar. As ideias sociais permanecem ancoradas em filosofias velhas e antigas. E ninguém fala nada, ninguém diz nada e todo mundo abraça isso com uma vocação e um fervor que justifica tudo. Você jovem deve ser de esquerda e sonhador, estou me dando minha opinião de cachorro velho.

Atribuem a você a frase de que no Brasil não há ator como Gael García Bernal.
Jamais diria isso, foi uma “filhadaputice”. Eu disse que não havia ator que pudesse trabalhar em espanhol, como ele. Que ator brasileiro poderia falar espanhol bem? Estão querendo mais é te enrabar do que ficar ouvindo a sua complementação.